Feira dos Capões

 

Feira dos Capões

“A fuerza de renunciar al pecamento de su carne produce um exquisito placer”

Camilo José Cela – escritor espanhol

 

Na Roma antiga, o cônsul Caio Cânio, coarctado nas suas horas de sono, pelo alvorecer canoro dos galos, teria conseguido fazer aprovar uma lei no senado que proibia a existência dos galináceos, no perímetro urbano da cidade.
Privados do prazer da sua carne, os súbditos logo inventariam uma forma engenhosa de contornar a disposição legal – capando os galos. Surgia assim o capão, o sápido eunuco que, na sua nobreza e requinte, se tornou comparável ao faisão, à perdiz e à galinhola.

E, pelos caminhos de Roma, chegaria até nós este costume e este processo que enriquecia a gastronomia e a alimentação da região, acrescentando-lhe nova e delicada iguaria.

Ao franganote, antes de começar a cantar de galo ou de adquirir trejeitos de rei da capoeira, tira-se a virilidade, mutilando-o nos seus órgãos genitais. Sem o vício de macho, torna-se corpulento, as penas alongam-se e tornam-se sedosas e macias, tal como a sua carne suculenta, por muitos escolhida para a ceia de Natal.

Por isso, Freamunde se engalana em cada 13 de Dezembro, para dispor aos olhos do potencial comprador e lhe aguçar o apetite, a espécie real (“capão de oito meses para a mesa do rei” – dizia o rifão) e acentua-se a sua auréola de “terra de capões”. A feira em que o capão é “rei e senhor” mas em que aparece de tudo (o interesse do peru está a decair), coincide com a data em que a liturgia católica venera Santa Luzia, a protectora da visão e das doenças dos olhos, devoção que atrai muita gente também a esta cidade e faz encher a capela de Santo António, onde está a imagem da homenageada... Aqui vinham ter turistas e negociantes de todo o lado e até da Galiza. Os espanhóis vinham oito dias antes. No início do século ficavam na Pensão Cardoso e outras. Muitas vezes traziam rendas para comerciar. Os de Paços diziam “vamos à feira aos espanhóis?”. Seria daí que passaríamos a ser apelidados por eles, de espanhóis.

Instituída por provisão régia d’El-Rei D. João V, a 3 de Outubro de 1719, há notícias de que a Feira dos Capões já se realizava no Séc. XV, no terreno e devesas da Confraria de Santo António, que usufruía com isso, grandes benefícios.

Vários autores se referiram ao capão em suas obras, que pela sua condição de eunuco, mereceu piada no “Anatómico Jocoso”, dirigindo-se o autor, que se pensa ser Frei Lucas de Santa Catarina, às freiras: “Vai o capão por regalo / Porém eu bem creio já, / Que a vocês lhes pesará / Que o capão não seja galo”.

Gil Vicente, D. Francisco Manuel de Melo, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, ao referi-lo, evidenciam o conhecimento da sua existência e da sua qualidade. Mas, para ir à mesa, para que o deleite seja maior e saboreado como um manjar real e sublime, deve ser preparado “à Freamunde”.

 

 

              

Semana Gastronómica / Concurso Gastronómico "Capão à Freamunde"

A Semana Gastronómica do "Capão à Freamunde" criada em 2006, numa parceria entre a Câmara Municipal de Paços de Ferreira, Junta Freguesia de Freamunde, Associação Juvenil ao Futuro (AJAF) e Associação de Criadores de Capões, tem por objectivo a promoção desta nossa iguaria ímpar.

No dia 12 de Dezembro (véspera da Feira do Capão) realiza-se um jantar para cerca de 300 convidados, onde os restaurantes que participam na Semana Gastronómica são sujeitos ao  Concurso Gastronómico "Capão à Freamunde". Concurso este que teve início em 1991.

  

Capão à Freamunde – Receita Tradicional

Embriaga-se o capão, com um cálice de vinho do Porto e passada meia hora, mata-se, depena-se, abre-se e lava-se.

Depois de estar em água fria com rodelas de limão, cerca de uma hora, põe-se a escorrer e mergulha-se em “vinha d’alhos” (molho de vinho branco, algumas colheres de azeite, sal e pimenta, e vários dentes de alho esmagados).

Deve ficar neste molho, de véspera, e proceder-se a diversas viragens, esfregando o capão.

No dia de o consumir, põe-se ao lume uma caçarola com azeite, gordura de porco e cebolas às rodelas. Quando a cebola está estalada, deita-se uma boa colher de sopa de manteiga, meio quartilho (2,5 dl) de vinho branco e sal q.b.

Escorre-se o capão, esfrega-se todo com este novo molho e recheia-se com “farófia” e um picado feito com os “miúdos” do capão e bocadinhos de salpicão e presunto.

Coloca-se na assadeira, de preferência uma “pingadeira” de barro, e leva-se ao forno a assar lentamente, picando-se com um garfo de vez em quando, ao mesmo tempo que se rega com o molho da assadeira. A operação de picar com o garfo deve ser cuidadosa para não ferir a pele que deve ficar estaladiça e loura.

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